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Marcelo Schafranski é matéria na Folha de São Paulo

No último dia 2 de janeiro o jornal Folha de São Paulo veiculou uma interessante matéria a respeito do tema abordado pelo livro Medicina – Fragilidades de um modelo ainda imperfeito (Schoba, 2011), juntamente com uma entrevista do autor da obra, Marcelo Derbli Schafranski.

Questionando o vai e vem das pesquisas médicas, o autor expõem em seu livro, através de uma linguagem simples e direcionada tanto aos médicos quanto aos pacientes, a sua crítica ao atual modelo médico vigente. Confira abaixo a entrevista, realizada pela  editora-assistente da área de saúde da Folha de São Paulo, Débora Mismetti, com o autor:

Folha – Por que as pesquisas se contradizem tanto?
Marcelo Schafranski – O grande problema é o modo como chegamos às conclusões. Por exemplo, como vamos saber se sal ou ovos fazem bem ou mal à saúde? O ideal seria fazer uma pesquisa com uma população enorme de gêmeos, no mesmo ambiente, parte recebendo sal ou ovo e parte não. Mas nunca vamos conseguir isso.
Baseamos nossas conclusões em estudos falhos. A maioria das pesquisas que aborda esse tipo de fator de risco é de coorte, em que se observa uma população, ou de caso-controle, em que se parte do fim [da pessoa já doente] para o começo. Estudos mais precisos, em que as pessoas são separadas em grupos e recebem uma intervenção (comer ou não ovo, por exemplo) são caros e, em geral, feitos por laboratórios para testar drogas e ter lucro. Ninguém gastaria dinheiro para fazer isso com ovo.

Quais são os principais problemas conceituais que aparecem nas pesquisas?
São questões que fazem a pesquisa começar errado já na origem. Uma delas é o chamado “p”, a probabilidade de a hipótese estar certa ou errada. Para um estudo ser aceito, o estabelecido é que a probabilidade de a hipótese provada estar errada deve ser menor do que 5%. Mas de onde vem esse valor? Isso não está escrito em lugar nenhum. A medicina baseada em evidências, na verdade, mistura duas teorias estatísticas diferentes. Outro problema é o número de hipóteses. O ideal é ter só uma. Um estudo publicado no Canadá em 2006 cruzou causas de internação e dados demográficos, até signo. Descobriram que pessoas de Touro têm mais doença diverticular do cólon. O que isso significa? Nada. Quanto mais comparações, maior é o risco de descobrirmos coisas que não têm nada a ver.

O sr. critica estudos sobre remédios que medem só se eles melhoram resultados de exames em vez de se reduzem mortalidade. Isso leva a condutas erradas?
Isso é feito para economizar e ter respostas rápidas. Temos remédios contra hipertensão no mercado que não provaram se reduzem mortalidade ou ocorrência de derrame. Eles controlam a hipertensão, ótimo. Mas e se depois a droga começa a matar os consumidores por intoxicação? Se o estudo tivesse analisado a mortalidade, não aconteceria isso.

O sr. diz que isso acaba levando a uma medicina centrada no médico em vez de no paciente. Como é isso?
O exemplo clássico é a osteoporose. O paciente chega com uma densitometria óssea indicando osteoporose, o médico receita uma droga e a pessoa, depois, refaz o exame. Aí o médico diz: “Sua densitometria melhorou, sua osteoporose está indo bem.” Mas a osteoporose está indo bem no exame, essa é uma variável centrada no médico. O que importa para o paciente é quebrar ou não um osso. Isso não depende só do resultado do exame, mas de outros fatores, como iluminação do ambiente, se ele está enxergando bem etc.

O sr. diz que a publicidade excessiva para certas doenças, como a criação de dias temáticos, pode causar um viés nos diagnósticos. Por quê?
Se um psiquiatra começa a ir a muitos congressos sobre depressão, a receber visitas de representantes de laboratórios com remédios para depressão, a ler artigos sobre isso, a tendência é que ele diagnostique mais depressão. O paciente que recebe essas informações também pode começar a se enquadrar nos sintomas.
Outra questão são as campanhas com exames de rastreamento. Num rastreamento de diabetes, você vai achar pré-diabéticos. Mas pré-diabetes aumenta mortalidade? Não está provado que isso realmente acontece. Muitos desses pacientes limítrofes vão acabar tomando remédios sem que haja evidências de que isso vai ajudá-los.

O que poderia ser feito para combater os vieses da medicina baseada em evidências?
Estudos populacionais independentes, que são caros e só podem ser feitos pelo governo. Em vez de pegar mil pessoas que usam um medicamento, seria possível pegar o país todo, para saber, por exemplo, se certa droga reduz a mortalidade.
Defendo também que os estudos venham com os dados básicos, sem os cálculos estatísticos mais complexos. Quem está lendo que faça os cálculos que julgar necessário. O problema é que os estudos ficariam sem conclusão, ficaria a cargo do leitor, do médico, que teria de saber estatística para interpretar isso. É mais fácil ler o resumo da pesquisa e acreditar nele.

O AUTOR

MARCELO DERBLI SCHAFRANSKI

IDADE E ORIGEM: 36 anos, de Ponta Grossa (PR)
FORMAÇÃO E ATUAÇÃO: Reumatologista,doutor em
medicina interna pela Universidade Federal do Paraná
e professor na Universidade Estadual de Ponta Grossa.

Confira a matéria completa no site Jornal Folha de São Paulo

A obra Medicina – Fragilidades de um modelo ainda imperfeito, do autor Marcelo Derbli
Schafranski, pode ser adquirida através da Loja Virtual da Editora Schoba.



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